segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
"Zero dark thirty"
O cinema norte-americano passou uma década a penar a herança do 11/9 e das guerras subsequentes no Iraque e no Afeganistão com resultados variados do ponto de vista artístico. O cinema documental foi talvez o que melhor lidou com a temática, tendo "Fahrenheit 9/11", divertido mas ingénuo e até leviano, feito um estardalhaço inesperado para o género (ganhou a Palma de Ouro em Cannes,polémica, e continua a ser o documentário com melhor performance nas bilheteiras em toda a história). No entanto, não podemos esquecer outras obras, como o excelente "Taxi to the dark side",de Alex Gibney, ou "Standard operating procedure", de Errol Morris, que, com estilos diferentes, fizeram o favor de mostrar o outro lado da guerra contra o terrorismo. Se nestes dois últimos casos temos um par de realizadores que estruturam filmes razoavelmente factuais, a obra de Michael Moore marca o tom geral do cinema desta temática: lamentos liberais a plenos pulmões. "Rendition", "Syriana" e "A mighty heart", por exemplo, marcam um tom claro: há republicanos e capitalistas maus que causaram esta guerra e se estão a aproveitar dela. A guerra é muito má e a tortura horrível. Não é que a mensagem esteja errada; mas é pronunciada sem a mínima complexidade. Difere, por exemplo, de "Lions for lambs", uma obra de Robert Redford que, não sendo brilhante, é um estudo mais equilibrado da questão. Fora das abordagens ideológicas, dois filmes destacam-se por terem optado por uma abordagem factual: "World Trade Center", de Oliver Stone e "United 93". Diferem em qualidade (o primeiro, com um tom sério e pesado que por vezes aborrece, embora em dois ou três personagens consiga colocar perguntas que realmente interessam; o segundo um visceral e espantoso exercício de cinema-verité que atinge como nenhum outro filme o lado de tragédia humana primária que aconteceu naquele dia), mas optam por apresentar a frieza da realidade, deixando a parte emocional connosco.
"Zero dark thirty", o excelente novo filme de Kathryn Bigelow, opta por este registo quase desligado da emoção e a meio caminho entre o jornalismo e o cinema. Em linhas gerais, segue todo o processo que levou à operação que localizou e eliminou Bin Laden em 2011, e como se não bastasse a polémica do tema, o filme tem sido mais falado pela sua posição moral relativamente à tortura do que propriamente pelos seus méritos e deméritos como objecto cinematográfico. É uma prova, acho, da sua mais-valia enquanto filme, pois adopta um tom de deixar os factos falarem por si. Cada um interpreta como quiser e decide o valor moral do que está a ver. No meu caso, saí com uma ideia oposta à que surge na imprensa: o filme não faz, por exemplo, o elogio da tortura. Na verdade, a personagem principal do filme, simplesmente Maya, vem-se a revelar a principal responsável pela captura de Bin Laden, precisamente por usar uma abordagem contrária à da lógica de tortura. Optando pelo jogo psicológico e pela inteligência, ela contorna precisamente a falta de resultado que os interrogatórios coercivos vinham ter até então. A primeira meia hora do filme é a desumanização de um prisioneiro do exército, até um ponto onde até o próprio interrogador se sente afectado, e a conclusão de que apenas uma abordagem diferente pode resultar. Como se comprovará. Entre os avanços e recuos do filme, a inteligência e raciocínio presentes no trabalho detectivesco de Maya e a sua equipa são, ao mesmo tempo, uma crítica à tortura e à maneira como o bravado do americanismo levou à demora de dez anos para a captura do terrorista mais mediático do século XXI; e também a diferença entre o que é civil e o que é bárbaro, e como aquilo que é bárbaro não é necessariamente certo. A presença de cenas de tortura numa história como esta é apenas natural pelas informações que dispomos (depois de Guantanamo e Abu Grahib) e não um acenar de cabeça positivo à sua utilização. Outra conclusão parece-me ser desonesta. "Zero dark thirty" destaca-se, precisamente, por não ser político.
É irónico que seja uma mulher a causar a queda de um homem cuja ideologia contemplava um regime teocrático que cortaria muitos direitos ao sexo feminino. Mas mais importante do que isso, Maya é uma criação assombrosa de Jessica Chastain, numa interpretação feroz, ao mesmo cerebral e primária, na maneira como não esconde os seus intentos e desejos. Segue um pouco a tradição do génio inadaptado, com muito poucas capacidades sociais e diplomáticas. Numa cena, a maneira como quase chama idiotas a todos os elementos da alta cúpula da CIA é um prazer de ver apenas porque estamos convencidos, até ao momento, de que ela é a pessoa (não mulher... feministas, parai) mais capaz para aquela missão. Maya navega por entre fuinhas políticos que querem usar a luta contra o terrorismo em seu próprio proveito (quando um superior a tenta forçar a abandonar a caça a Bin Laden para se dedicar a alvos menores, mas que aparecerão nos noticiários, Maya redu-lo a um farrapo político através de um tipo de chantagem que convence o espectador de que não está presença de uma santa) e evita durante quase todo o filme mostrar as suas emoções. Nem mesmo quando a oportunidade surge: num encontro particular com o director da CIA, este pergunta-lhe que mais fez ela na CIA para além de caçar Bin Laden. Num outro filme menor, este seria um momento de grandiloquência emotiva, onde a personagem principal explicaria, num discurso emotivo, o que lhe ia na alma, histórias de anos de luta a necessidade de capturar o terrorista como símbolo de algo. Mantendo as suas emoções encerradas, Maya responde simplesmente que não fez mais nada. É este distanciamento que mantém em relação ao espectador que permite que os momentos raros em que se permite a quebrar nos atinjam com uma força inesperada.
Kathryn Bigelow é a principal responsável do filme. Mark Boal escreveu um fastidioso e completo argumento factual que lhe serve de planta, mas Bigelow torna a aridez do real num espaço de tensão e imediatez constantes, uma imagem de marca que vem de toda a sua carreira e que a maior parte dos cinéfilos pôde conhecer em "The hurt locker". Aqui, ela mantém esse talento para estabelecer de imediato as set-pieces, a sua geografia e participantes, de maneira a envolver-nos de imediato na acção. Nalguns momentos, Bigelow transforma essas cenas de acção quase em obras de arte geométrica. Uma cena, em particular, num mercado do Paquistão, em Abotabbad, enerva a tal ponto que cansa só de ver. No entanto, e porque esse seria o momento esperado para marcar o filme, é no raid final que temos direito a uma seqência de acção excepcional não pelo espectáculo, mas sim pela precisão fria e pelos pequenos pormenores que a tornam real. Não há grandes heroísmos, explosões ruidosas e tirando um momento mais épico (e que não devia estar nos planos dos soldados) é discreta, quase silenciosa e muito directa. O momento em que culmina é não grandiloquente, mas sim regular. Mais uma dia no trabalho. É surreal, e os próprios marines demoram a digeri-lo. Não é um soco no estômago: é um suspiro. Toda a ansiedade dessa sequência de quase meia hora passa para nós e reside não no seu desfecho, mas na execução. Eu estava tão alterado que tal como os marines, inicialmente, até duvidei que aquele corpo no chão fosse de Bin Laden.
No final, Maya finalmente quebra. Chegou o fim da caçada; e agora? Ela não sabe. Aliás, tal como os EUA, que fecharam este capítulo de maneira criticada por todos, a morte de Bin Laden marca um final, mas também um início da vida depois da sombra do onze de Setembro. A bela e discreta banda sonora de Alexandre Desplat ergue num pálio a emoção, mas Bigelow recusa-se, ainda assim, a retirar-nos o peso de termos uma opinião pessoal. Bin Laden morreu. Métodos questionáveis foram usados. Puro intelecto esteve envolvido. Todos perderam, de uma maneira ou de outra. Agora, cada um sabe o que sente em relação a isso
domingo, 20 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
"Silver linings playbook"
A apologia do loucura é um cliché eterno do cinema. Ser louco não é necessariamente ser mau, e no cinema, os loucos seduzem-nos e atraem-nos, ao contrário da vida real, onde nos repelem para 70 metros de distância. Esta mania tem entrado nos últimos anos num território insuspeito: a comédia romântica. Quem devemos culpar? Não sei bem. Talvez a estranha popularidade entre o público joveme amante de ironias que elevou a "manic pixic girl" a ícone dos amores deste século XXI. A MPG nada mais é do que alguém com quem o protagonista masculino cria uma ténue ligação, normalmente a partir de um gosto musical comum, possuindo em si um conjunto de características que, tal como os loucos, adoramos no cinema, mas que nos chocariam e afastariam no mundo real. De certa maneira, tem lógica, porque muitas das vezes, a maneira mais segura de experimentarmos a loucura é no cinema.
"Silver linings playbook", uma simpática, sorridente e um pouco pateta "dramédia" romântica é apanhada nesta corrente, mas com um twist que torna o filme ao mesmo tempo irritante e sedutor: ambos os protagonistas têm um problema mental. No caso de Pat Solitano, é a bipolaridade, que explode em todo o seu esplendor quando apanha a esposa em casa com outro homem, que apanha literalmente a explosão na cara. Depois de cumprir seis meses num hospital psiquiátrico, cumprindo a pena estipulada pelo tribunal, Pat diz-se preparado para a vida real e está especialmente obcecado em recuperar a mulher. Encontra em casa uma mãe que o ama e que também tem de cuidar de um pai desempregado, fanático por futebol americano e que tem traços de obsessão-compulsão. Numa tentativa de fazê-lo sentir integrado, o seu melhor amigo combina um jantar de boas vindas, e é aí que conhece Tiffany, a segunda louca desta equação, embora com um problema mais apelativo: está a ultrapassar uma crise de ninfomania despoletada pela morte do marido. Há uma atracção estranha entre ambos e até ao final, o conflito entre essa atracção, a obsessão de Pat e o gosto por futebol americano do pai de Pat cruza-se com um concurso de dança, criando uma história que cativa na mesma quantidade que confunde.
O filme tem diversas qualidades que não se podem negar. Não é a primeira vez que David O. Russel dirige comédias românticas estranhas. "I heart Huckabees" é até o exemplo mais comercial, mas este é o homem que dirigiu "Spanking the monkey", uma comédia que gira em torno do incesto. Por isso, sabe tornar uma premissa de razoável bizarria num filme coerente e digerível; e é um facto que "Silver linings playbook" tem imenso charme. Um dos motivos é, no entanto, uma fraqueza: a escolha de actores principais. Não é que estejam mal, pelo contrário: Bradley Cooper é uma revelação, pelo menos para mim, no papel de Pat, um indivíduo que não consegue largar o passado, a um ponto que se torna idiota na história do filme. Encarna convincentemente um indivíduo bipolar e sem filtro, equilibrando a rudeza e o apelo ao espectador. Jennifer Lawrence tem um desempenho que nem sei bem se lhe chame desempenho... Já vi entrevistas dela e Lawrence é assim: cativante, emocionalmente desbocada, intensa, entusiasmante. Há uma dor latente que a actriz traz à personagem de Tiffanny e que, em última instância, vira a história e a própria vida de Pat. Se um espectador heterossexual não sair apaixonado por Tiffany deste filme, terá um problema. No entanto, quando este dois actores (de invejável pool genética) encarnam estes personagens, não nos parece que tenham assim tantos problemas quanto isso... Não é que não sejam credíveis nos seus papéis; mas são Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Bradley Cooper, apesar de tudo, disfarça como pode este factor, porque há pontos na história em que Pat chega a pontos patéticos mais trágicos do que cómicos. Ainda assim, a sensação passou-me. Há também um elogio à loucura que é falso: se todos são, de alguma maneira, loucos, a loucura não é especial. Na verdade, a normalidade é que é especial, e por isso é celebrada no filme como sendo louca. Mas se as pessoas, de facto, funcionam, não pode ser, por definição, loucura, certo?
O argumento possui problema também, na minha opinião. O primeiro acto, e o começo do segundo, arrastam-se demasiado. O filme repete temas e esquemas em cenas diferentes, o que atrasa o arranque dauilo que queremos realmente ver: Tiffany e Pat a interagir um com o outro. Há também um personagem quase decorativo de um polícia que deve controlar Pat na comunidade e cuja única função parece ser atrair o nosso ódio. A relação entre Pat e o pai, de suposta crispação, nunca fica estabelecida como deve ser, e isso nem seria problema de não houvesse um momento específico no filme onde a dor dá lugar à confissão e é o ressoar desse momento que faz Pat acordar um pouco para a vida. Esta cena só é salva por um actor inteligente como é Robert de Niro, que do nada cria tudo o que precisamos saber para nos ligarmos à relação entre estes dois personagens. De Niro tem, aliás, uma performance muito interessante, que faz sorrir aqueles que, como eu, sentem sempre alguma tristeza ao vê-lo arrastar-se por filmes que não merecem o seu talento. Este papel, que marcou o seu regresso aos Óscares, é esse regresso de alguma qualidade à sua carreira. A célula familiar, que envolve também a mãe (uma Jacki Weaver que não percebo muito bem porque foi nomeada para os Óscares), é também o cliché da família disfuncional que vai-se a ver, e afinal é boa, característica de um certo cinema indie norte-americano. Não é que os clichés sejam algo de inerentemente mau. A maneira como são apresentados e desenvolvidos é importante, e neste filme, não achei que fosse a melhor.
No entanto, "Silver linings Playbook" está programado para ser um feel good movie perfeito. Consegue-o: quando saí da sala de cinema, vinha de sorriso de orelha a orelha, pensando ter visto algo de realmente excelente. Só no dia seguinte, quando comecei a pensar realmente no filme, é que os problemas aparentes surgiram. O mérito é de David O. Russell, que do caos, arranca uma obra positiva e de história de vida temperada com um pouco de bizarro. Um plano, perto do final do filme, sela o acordo: é um long shot acelerado, que se afasta dos dois personagens e é exactamente aquilo que passa na minha cabeça quando beijo uma rapariga de quem gosto pela primeira vez. É um pouco como o amor: mexendo no nosso coração, atrapalha tudo o resto que devia ser ocupação da cabeça; e conseguir isto num filme já é uma proeza.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Oscars 2012: as nomeações
Amanhã, chega o segundo dia mais esperado na indústria do cinema norte-americano: o anúncio das nomeações para os Óscares. Este ano é particularmente animado e memorável, pois chegados a um mês da cerimónia, não existe um favorito claro. Há três ou quatro filmes que se destacam, mas nesta altura, ao contrário do que tem acontecido nos últimos anos, a emoção existe e as possibilidades estão ainda em aberto. Isso torna prever os nomeados um exercício mais complicado, visto que não se sabe quantos serão os lugares para Melhor Filme. São cinco, de certeza, mas podem ir até dez. A bem da clareza, colocarei as minhas previsões para essa categoria específica por ordem de probabilidade: os cinco primeiros seriam a minha aposta para um ano normal de quinteto. O resto são acrescentos. Saltarei as categorias de curtas, porque honestamente, nem sei quem são os finalistas. Também a de canção: digo-vos j+a que ganha a "Skyfall", de Adele. Pronto, podem apostar; e passemos ao que interessa.
Melhor filme
"Lincoln"
"Zero dark thirty"
"Les miserables"
"Life of Pi"
"Argo"
"The silver linings playbook"
"Beats of the souther wild"
"Django unchained"
"Moonrise kingdom"
"Skyfall"
Alt. - "Flight"
Melhor realizador
Steven Spileberg - "Lincoln"
Kathryn Bigelow" - "Zero Dark Thirty"
Ben Affleck - "Argo"
Ang Lee - "Life of Pi"
Tom Hooper - "Les miserables"
Alt. - Quentin Tarantino, "Django unchained"
Melhor actor
Daniel Day-Lewis - "Lincoln"
Hugh Jackman - "Les miserables"
John Hawkes" - The sessions"
Denzel Washington - "Flight"
Joaquin Phoenix - "The master"
Alt. Bradley Cooper - "The silver linings playbook"
Melhor actriz
Jennifer Lawrence - "The silver linings playbook"
Jessica Chastain - "Zero dark thirty"
Marion Cotillard - "Rust and bone"
Naomi Watts - "The impossible"
Emmanuelle Riva" - "Amour"
Alt. - Quvenzhané Wallis - "Beasts of the southern wild"
Melhor actriz secundária
Sally Field - "Lincoln"
Anne Hathaway - "Les miserables"
Helen Hunt - "The sessions"
Amy Adams - "The master"
Maggie Smith - "The best exotic marigold hotel"
Alt. - Ann Dowd, "Compliance"
Melhor actor secundário
Tommy Lee Jones - "Lincoln"
Alan Arkin" - "Argo"
Robert de Niro - "The silver linings playbook"
Philip Seymour Hoffman - "The master"
Javier Bardem - "Skyfall"
Alt. Leonardo di Caprio - "Django unchaine"
Melhor argumento original
"Zero dark thirty" - Mark Boal
"The master" - Paul Thomas Anderson
"Moonrise kingdom" - Roman Coppola e Wes Anderson
"Flight" - John Gatins
"Looper" - Rian Johnson
Melhor argumento adaptado
"Lincoln" - Tony Kushner
"Argo" - Chris Terrio
"Life of Pi" - David Mgee
"The perks of being a wallflower" - Stephen Chbosky
"Beats of the southern wild" - Behn Zeitlin, Lucy Alibar
Melhor montagem
"Lincoln" - Michael Kahn
"Argo" - William Goldenberg
"Zero dark thirty" - Dylan Tichenor, William Goldenberg
"Life of Pi" - Tim Squyers
"Les miserables" - Melanie Oliver, Chris Dickens
Melhor fotografia
"Lincoln" - Janusz Kamisnky
"Life of Pi" - Claudio Miranda
"Skyfall" - Roger Deakins
"Django unchained" - Robert Richardson
"The master" - Mihai Malamaire Jr.
Melhor documentário
"The imposter"
"Searching for sugar man"
"The gatekeepers"
"Never sorry"
"The invisible war"
Melhor filme de animação
"Wreck-it Ralph"
"Brave"
"Frankenweenie"
"Paranorman"
"Rise of the guardians"
Melhor filme estrangeiro
"Amour" - Áustria
"Intouchables" - França
"No" - Chile
"War witch" - Canadá
"A royal affair" - Dinamarca
Melhor caracterização
"Lincoln"
"Les miserables"
"The hobbit"
Melhores efeitos visuais
"The avengers"
"The hobbit"
"Life of Pi"
"Prometheus"
"The dark knight rises"
Melhor montagem sonora
"Skyfall"
"Lincoln"
"Les miserables"
"Zero dark thirty"
"The avengers"
Melhor som
"Skyfall"
"Argo"
"Lincoln"
"The avengers"
"The hobbit"
Melhor cenografia
"Lincoln"
"Les miserables"
"Anna Karenina"
"Django unchained"
"The hobbit"
Melhor guarda-roupa
"Lincoln"
"Anna Karenina"
"Les miserables"
"Cloud atlas"
"The hobbit"
Melhor banda sonora
"Lincoln"
"Life of pi"
"Brave"
"Cloud atlas"
"Skyfall"
"Flight"
A história começa com num quarto de hotel, onde álcool, droga e uma mulher nua servem de cartão de visita para Whip Whittaker (Denzel Washington), um piloto de aviões extremamente talentoso, mas com uma queda para o lado selvagem da vida. Depois de conseguir fazer descolar o avião em circunstâncias complicadas, enfrenta pouco depois problemas mecânicos e sobe ao estatuto de herói quando controla o avião para uma aterragem forçada num campo ao lado de uma igreja. Milagrosamente, morrem apenas seis pessoas, duas delas da tripulação. No entanto, o piloto rapidamente desce do pedestal quando os resultados dessa noite no quarto de hotel aparece nos testes sanguíneos. De herói, Whittaker passa a suspeito de homicídio e responsável pela queda do aparelho
A investigação e julgamento interessam pouco no filme em si, servindo apenas de catalisador do verdadeiro motivo de interesse da história: os demónios que atormentam o piloto de aviões e que o levam a procurar refúgio em substâncias de escape. WhipWittaker (um dos melhores nomes de personagem dos últimos tempos) é o clássico génio perturbado. A sua proeza incute em nós a ideia de que este pode ser um alcoólico funcional. Mas o seu comportamento contraditório leva-nos a encontrar um indivíduo extremamente confuso, cujo talento não ultrapassa a sua inabilidade em lidar consigo mesmo. Denzel Washington tem um dos melhores desempenhos da sua carreira (naquele que é também um regresso, mas aos papéis complexos), vestindo a carcaça de um indivíduo que não se consegue aterrar a si própria sem segurança, numa queda livre em que participa com uma arrogância majestosa de quem sabe o que vale nos ares, mas incapaz de pôr os pés na terra relativamente aos seus verdadeiros problemas. Há momentos na sua performance que me deixaram desconfortável, pela frontalidade a que Denzel nunca foge. Sem nunca tentar desculpar o personagem, há dois momentos onde Whip exerce uma chantagem emocional desonesta sobre dois personagens, com esquemas e manipulações que apenas o tornam mais assustado e imperfeito; e no entanto, nunca conseguimos desejar realmente que seja condenado.
O excelente argumento de John Gatins explora também a temática religiosa. Alguns dos sobreviventes atribuem o milagre não ao piloto, mas a Deus; o avião despenha-se junto a uma igreja, enquanto a congregação rezava no exterior, e derrubando uma das torres do edifício; uma mulher toxicodependente, que Whitttaker ajuda a sair do vício (num raro espaço de claridade onde pensa conseguir também sair do seu sem a ajuda de ninguém) tenta convencê-lo a entrar nos Alcoólicos Anónimos (onde a religião é uma base importante); e num pormenor que não é acaso, os passageiros do avião são amiúde referidos como "souls" (almas) nas várias descrições do acidente. Quererá o filme apontar este desastre como um acto divino? Se sim, quem é o alvo? Whittaker, que tendo a vida destruída, deve acordar do seu torpor de dependência? Nesse caso, porque tiveram de morrer seis pessoas para que uma alcançasse a claridade? Toda a experiência posterior ao desastre é um confronto entre a arrogância inerente de um homem que se julga todo poderoso contra um Deus; a certa altura, o seu co-piloto, deixado paraplégico pelo desastre, exorta Whittaker a converter-se a Jesus, pois só ele é o Salvador e último juiz dos nossos actos. Admira-se o filme por ser sincero e não tornar a situação cómica, como outros fariam. Mas este pedido para que Whittaker mergulhe na sua consciência, e em si mesmo, apenas o leva a nova ronda com o álcool, numa fuga aos seus erros e responsabilidade.
O filme tem alguns desempenhos secundários interessantes (de cada vez que John Goodman aparece, este drama de adultos vira uma comédia de adultos), mas o centro é a personagem de Denzel Washington, como acontece nos filmes de Zemeckis pós- "Forrest Gump", que se ancoram num actor ou actriz principais carismáticos (Tom Hanks, Jodie Foster, Michelle Pfeiffer) e deixam que o resto gire à sua volta e assente. Zemeckis afia as suas garras e monta um filme soberbamente realizado, tanto nos momentos grandiosos como nos pormenores. O desastre de avião, por exemplo, é uma monstruosa cena que consegue superar a sua anterior desventura neste género de cenas ) em "Castaway": raramente saindo do cockpit do avião, é tensão a subir numa queda, estando tudo nos gestos e face dos actores, e raramente se dando ao exibicionismo de money-shots; mas quando se dá, um avião invertido é uma daquelas imagens que nos deixa momentaneamente sem fôlego. Num momento mais calmo, o confronto entre a decência de Whittaker e um frigorífico que bem se podia chamar El Dorado é de uma tensão portentosa e que supera catadupas de explosões e tiros em qualquer filme. Depende da nossa empatia com o personagem, e resulta, porque Zemeckis não se limita apenas a ser um excelente realizador de grandes momentos: constrói histórias, a pouco e pouco, que explodem no final com um gosto que sabemos ser inevitável.
O filme tem defeitos também (há uma historiazinha paralela envolvendo toxicodependência que arranca cedo de mais e retira alguma força ao poderoso arranque inicial do filme), mas que não haja enganos: é uma daquelas obras de que se diz habitualmente que ninguém quer ver mais; e no entanto, já rendeu para cima de 100 milhões de dólares. Por muito que tentem adormecer o cérebro das pessoas, elas querem complexidade, quando lha damos. Aqui, embora sendo apenas uma palavra, a complexidade vem logo no título. O "Flight" do filme não se refere ao avião: refere-se ao voo da alma quando esta se encontra leve e livre das mentiras. Apenas quando Whip Whittaker se decidir a confrontar com os demónios poderá, de facto, entrar numa graça mais importante que a de Deus: a sua.
domingo, 30 de dezembro de 2012
"Argo"
A ideia de Ben Affleck, o realizador, tem ganho permanência nas nossas mentes desde o seu início em "Gone baby gone". Num começo prometedor, guiando um thriller de maneira segura e com excleentes performances, Affleck permaneceu na sua Boston natal para transformar "The town" num daqueles filmes de que era impossível não se gostar no ano de 2009. Neste ano, o realizador/actor tomou a decisão de mudar de ares, como que para provar de que a sua musa da Costa Leste não era o que definia e marcava a qualidade do seu cinema. Desta vez, mantendo no género do thriller, viajou para o Médio Oriente, e o resultado é um filme que embora não deslumbre pela perfeição das imagens, é muitíssimo competente e mostra Ben Affleck como um dos realizadores que melhor sabe contar uma história escorreita e eficaz.
A história do filme parece inventada, mas é baseada em factos verídicos: no meio da revolução iraniana em 1979, a embaixada norte-americana é ocupada por cidadãos do país, e no meio da confusão, seis funcionários escapam-se para a casa do embaixador canadiano, permanecendo em segredo no país. Para evitar um embaraçoso incidente internacional, o governo norte-americano arrisca um plano ousado (leia-se absolutamente desequilibrado) que propõe a simulação das gravações de um filme de ficção científica em território iraniano para infiltrar um agente que retire os seis cidadãos americanos do país. Alguém ponderar este plano de forma séria já é risível; saber que resultou, supera isso. No entanto, é a história perfeita para um filme de Hollywood: é high-concept o suficiente para poder ser definido num par de linhas, e transmite a mensagem tão querida no meio artístico que a arte, no caso o cinema, pode de facto mudar a História e ter uma intervenção importante na vida das pessoas. Ben Affleck não nos atira com isso constantemente à cara, e aí, pontos para ele. Mas essa ideia está subjacente e não pode se retirada.
O filme divide-se em dois palcos de acção distintos: uma viagem de Tony Mendez, o agente que idealiza todo o plano (e é interpretado por Affleck com calma, soturnidade e barba de três semanas, o que para uma cara bonita significa "estou a fazer um papel sério"), a Hollywood para criar, de facto, um filme a sério e do qual os iranianos não possam desconfiar; e uma Teerão feita ratoeira, onde a qualquer momento os guardas revolucionários podem descobrir que faltam seis reféns na embaixada, e a situação vira para o torto (fantástico o instrumento com que este suspense é mantido e que não revelarei). Na primeira, desenrola-se uma comédia de bom ritmo, onde Alan Arkin e John Goodman mostram como fazer rir sem transformar um filme sério em ridículo, com boas tiradas ("If I'm going to produce a fake movie, it's going to be a fake hit"). Desconstrói-se um pouco de Hollywood e mostra-se como o cinema, no fundo, é a arte de fazer parecer sem que se faça muita coisa realmente. Desviar a atenção daquil que existe para uma criação ficcional daquilo que se quer fazer acreditar que exista. Ou seja, criar um filme não é muito diferente de fazer espionagem. Goodman, bonacheirão e bem disposto, contra-balança a impaciência e língua afiada de Arfkin, como um produtor famoso, mas ultrapassado, que vê neste "projecto" a oportunidade de fazer algo de diferente com a carreira.
É em Teerão, no entanto, que se centra a real angústia que permeia o filme. Mesmo para quem conhece o caso real e seu desfecho (como era o meu caso), a narrativa do filme avança fluida e transporta-nos para um estado de incerteza onde tudo parece tremido até ao final. É certo que os clichés não são poupados, mas Affleck atira-os com galhardia, no momento certo e sabe criar condições para que, inconscientemente, quase peçamos que esses clichés aconteçam. Tudo porque não queremos que a história acabe mal. Por estranho que pareça, a mistura entre os dois elementos (comédia e thriller) e muito bem utilizado pelo realizador. A prova está no facto de ambos se complementarem e serem reflexos um do outros em vez de se anularem e atrapalharem. Uma sequência prova este simples facto, e é virutosa e inesperada: entrecortando a leitura pública do guião do seu filme falso (uma ficção científica série B altamente manhosa), com direito aos típicos taradinhos e figuras da Hollywood superficial e decadente, com a leitura pública de um comunicado político por parte de alguns revolucionários, focando também o drama daqueles que estão reféns na embaixada, Affleck mostra como, seja política ou cinema, é tudo um espectáculo; e por isso, a ideia de usar um filme falso para resolver um imbróglio diplomático não será assim tão descabida.
Destaca-se ainda Bryan Cranston (como sempre, excelente) no papel do superior de Ben Affleck., que reforça uma das ironias no filme: para um plano que depende tanto do espectáculo, é estranho como o seu sucesso passará despercebido durante vários anos, sem nunca se saber o que realmente aconteeu. Affleck chama a si também um papel ingrato na posição de actor, assumindo a personagem mais apagada, eno entanto central à história. Tudo porque ele sabe que é assim que deve ser para que o filme resulte e cative. Sacrificar-se em prol da sua obra? Marca de um realizador muito bom. A continuar assim, teremos de usar a palavra "excelente" a seguir ao seu nome; e não parecerá nada estranho.
Destaca-se ainda Bryan Cranston (como sempre, excelente) no papel do superior de Ben Affleck., que reforça uma das ironias no filme: para um plano que depende tanto do espectáculo, é estranho como o seu sucesso passará despercebido durante vários anos, sem nunca se saber o que realmente aconteeu. Affleck chama a si também um papel ingrato na posição de actor, assumindo a personagem mais apagada, eno entanto central à história. Tudo porque ele sabe que é assim que deve ser para que o filme resulte e cative. Sacrificar-se em prol da sua obra? Marca de um realizador muito bom. A continuar assim, teremos de usar a palavra "excelente" a seguir ao seu nome; e não parecerá nada estranho.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
"Brave"
"Brave" tem um enorme problema que vai gerindo durante a hora e meia de duração: traz a marca "Pixar", mas em simultâneo, é um filme Disney. Parecendo que não, ser filho de ambos os ventres não é exactamente fácil. O modelo Disney, por muitas transmutações que lhe dêem, vem formatado e reflecte-se, por exemplo, no modelo da história, onde uma princesa tem de decidir o seu destino, tendo como pano de fundo conflitos entre clãs escoceses (e a belíssima paisagem do país). A irreverência da Pixar, neste ponto, é retirar da equação um dos pontos principais de qualquer história de princesas: o príncipe. De facto, e surpreendentemente, não há qualquer tipo de intriga amorosa, e o objectivo de Merida, a ruiva de cabeleira indomável que protagoniza a película, nunca passa por ou depende de um homem. Ela procura o seu próprio caminho, porque quer ser feliz. Por seus próprios meios. Há aqui uma deliciosa subversão da marca maior da casa do ratito de orelhas grandes.
No entanto, o peso Pixar faz-se sentir na hora de avaliar. É impossível dizer que estamos na presença de um mau filme: há um sentido na história, alguns momentos bem filmados e divertimento (por vezes mais pueril, mas entende-se que a abdicação do princípio da princesa Disney tenha chegado com um preço) e prestações vocais excelentes (com destaque para Emma Thompson e Kelly McDonald, mãe e filha com trovão e fricção suficientes para ultrapassarem as linhas dos desenhos) e o primeiro acto é uma maravilha de estabelecimento de personagens, conflito, ambiente e uma cena badass protagonizada por uma mulher que atropela o orgulho de três herdeiros do respectivos clãs escoceses, que lutam pela sua mão numa prova de arco e flecha. Tudo isto entusiasma e dá a ideia da chegada de um excelente filme da Pixar, depois do desaire de "Cars 2". As mulheres, e neste caso a luta de vontades entre elas (a rainha Ellinor quer fazer cumprir uma tradição sobre a qual toda a estabilidade da Escócia se aguenta; a filha, Merida, pretende procurar a sua própria felicidade sem constrangimentos e com o seu direito a escolher), os homens são cartoons na definição mais simplória do termo, sem uma personalidade própria e representando a ideia estereotipada que temos dos escoceses: brigões, beberrões e usando o seu kilt de mil e uma maneiras marotas. É engraçado, mas espera-se sempre mais da Pixar.
Depois de um twist quase Myiazakiano (que não vou revelar), o filme entra na sua vertente mais próxima da Disney: um vilão mau, muito mau, uma bruxa, uma lição familiar e a moral de que por muito que se queira ser independente, se deve amar a família e escutar tudo o que eles no dizem, embrulhando toda a história (e o apressadíssimo terceiro acto) num lacinho brilhante e algo asséptico que não é habitual na Pixar. Para mim, os filmes desta casa são sinónimo de ficar em lágrimas quase, emocionado, arrebatado. "Brave" é divertido, muito bem desenhado (o pormenor das paisagens escocesas é de deixar uma pessoa a trocar as retinas) e tem algumas personagens cativantes, mas sem uma complexidade de leitura que ultrapasse o simples trabalho de animação. É um excelente desenho animado, mas um razoavelmente bom filme da Pixar. Eis o momento quando a excelência é a nossa principal inimiga.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
"The grey"
Liam Neeson tem construido uma carreira recente praticamente ao contrário de todos os outros actores da sua geração. Ao invés de aceitar papéis secundários de luxo em produções de estúdio ou protagoninstas melancólicos em filmes independentes desenhados para o prestígio, o irlandês que nunca consegue disfarçar a origem do seu sotaque tem forjado a carreira num nicho muito restrito: o de herói de acção cinquentenário. "Taken", de 2008, gravou na mente de uma geração mais nova e impressionável uma imagem de Neeson com que a maioria dos cinéfilos não se identifica. Por muito bacoco que seja, o discurso ao telefone desse filme de Pierre Morel tornou-se numa daquelas cenas que entram de imediato para a cultura popular. O actor aproveitou a boleia para fazer mais filmes do género, dando as boas vindas a uns milhões de dólares com que não contaria nesta altura da carreira. Liam Neeson, ao invés de Oskar Schindler, tornou-se sinónimo de um homem com um conjunto particular de habilidades, boa parte delas em forte conflito com os departamentos de ortopedia dos hospitais europeus.
Por isso, quando surgiu o rumor que de "The grey" envolveria uma luta de sobrevivência, entre homens e lobos, geeks e pessoas facilmente impressionáveis em todo mundo entraram em frenesim. A situação chegou a um ponto em que a alcunha do filme era "The wolf puncher". Pois bem, a boa notícia é que "The grey" é uma absoluta surpresa para quem está à espera de mais um esforço alimentício às costas de um herói de acção improvável. Um filme que cruza sobrevivência, depressão, a questão da ausência de Deus e um clima antecipação trágica que, esse sim, se pode esmurrar não são características que se podem antever do trailer, mas estão lá; e fazem dele um objecto complexo. O personagem principal, o John Ottway de Neeson, é um segurança num complexo de exploração petrolífera no Alasca. Desde o início do filme que está à beira da depressão suicida; e os seus desejos parecem ter sido atendidas, quando o avião em que se desloca com os colegas de trabalho, se despenhar no meio de nenhures. No meio de tudo isto, existem as temperaturas gélidas, a falta de comida, mortos e uma matilha de lobos que parece ter uma especial predilecção por carne humana.
O que resulta daqui é um filme de sobrevivência duro e inesperadamente emocional. Liam Neeson tem a sua melhor performance em largos anos. Um momento, em particular, pouco depois de o avião despenhar inverte tudo o que damos por certo na imagem durona que o irlandês tem criado nos últimos anos, sem no entanto nos pôr a duvidar de que ele é o macho alfa daquela grupo. É um momento quase inesperado de emoção que rapidamente desaparece na necessidade de sobrevivência nas circunstâncias mais adversas, mas fica na memória e estabelece, para lá da sua testosterona, o carácter de Ottway. A acompanhá-lo, um conjunto de personagens habituais neste género (o crente religioso, o homem de família, o cínico machão, o comic-relief), mas desenham apenas o suficiente para não desaparecerem no meio da neve. Curiosamente, para um filme onde os lobos são o antagonista mais óbvio, as mortes provocadas pelos animais são filmadas de forma rápida e eficaz. É no confronto entre os desesperados homens e a Natureza que está o principal interesse e conflito da obra. Expõe-se um conflito entre o Homem e o Caos, e a arbitrariedade de tudo o que constitui a vida. Na verdade, toda a ausência de sentido aumenta com o facto de sabermos a tendência suicida de Ottway. É como se a imensa montanha gelada, com as suas florestas impenetráveis fosse o seu mundo mental e os lobos os demónios que o perseguem e acicatam. É um paralelismo interessante e que resulta através da interpretação intensa de Neeson. Talvez seja curioso o facto de o actor ter passado por uma crise semelhante durante a rodagem do filme, visto que a sua esposa, Natasha Richardson, morreu pouco antes do início.
Carnahan mantém a realização apertada e usa a agitação da imagem com eficácia, e alguns toques graciosos aqui e ali. A tensão é mantida durante todo o filme, com espaço para momentos de camaradagem e revelações pessoais que vão construindo a nossa própria relação com os personagens. Não são duros, nem heróis... São homem que tomaram decisões e vivem com elas, que vão da bravura exclamativa à percepção do seu verdadeiro lugar no mundo natural no tempo de um uivo mais forte. São falíveis, portanto, e estão entregues àquilo que não podem controlar. Carnahan reforça isto colocando sempre os corpos numa perspectiva anã em relação ao cenário, deixando-os desfocados como se fossem simples sombras que não fazem mossa. Utilizar estes estilo, agitado e tremente, não é para todas as mãos. Que o diga David Goyer, por exemplo, que arruina "The end of watch", que vi hoje, por uma péssima utilização dessa técnica. Aqui, o realizador não falha: o imediato da acção e a majestade da paisagem coexistem, aumentando o impacto da luta pela sobrevivência. Não é excepcional o tempo, mas quando o é, ressoa os temas do filme; e isso é uma
das coisas mais básicas sobre realização de cinema.
O filme tem um ou outro defeito com que se vive bem. É complexo, mas não fastidioso, e entretém esticando um pouco dos limites da credulidade. No entanto, o final do filme é absolutamente honesto e perfeito, e tendo o início o tom quase desesperado da tristeza humana, tudo o que está no meio são pormenores (mesmo que um desses pormenores seja um desastre de avião magnificamente filmado). Como no início, está tudo em Neeson. Na sua cara, na sua expressão nos seus olhos. A morte e a ressurreição. Mesmo que os olobos sejam o principal chamariz, é o irlandês que nos chama à luta. Uma e outra vez.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Não se pode comer só gourmet
"Pirates of the Caribbean", filme de 2004, não devia ter funcionado. No entanto, uma mistura de acidentes felizes fabricou o início de uma das sagas de maior sucesso da última década. A base era um entretenimento de parque temático Disney, mas não interessava: a ponta de irreverência que por acidente entrou no filme deu-lhe um tom de frescura que o distingue de outras blockbusters de aventura, inclusive das suas próprias sequelas. É um estranho híbrido entre um filme de aventuras a sério e o seu gémeo gozão. O filme funciona porque finalmente se deu rédea solta a Johnny Depp num filme mainstream (e num papel que, se atentarmos, não é exactamente aquilo que esperamos numa actuação comercial); porque o ar cabotino de Orlando Bloom, essencial para compreendermos a sua carreira, é posto no melhor dos usos; porque Keira Knightley não é uma donzela tradicional e tem talento para perceber que o que se lhe pede é, precisamente, que não o seja; e Geoffrey Rush não precisa de adjectivos. As partes 2 e 3 eliminaram um enfoque nas dinâmicas entre estes personagens e adoptaram a máxima de "quanto maior, melhor". Resultado? São chatos que dói.
O quarto filme da saga muda de condutor, e Gore Verbinsky dá o lugar a Rob Marshall. O resultado é uma fita com uma clara divisão: os momentos em que Johnny Depp aparece, ora com Rush, ora com a neófita Penelope Cruz (que está do caraças), e os outros onde se introduzem personagens que fazem da narcolepsia um instrumento de profissão. O mobil da fonte da juventude está bem esgalhado, e verifica-se uam corrida a três pela sua posse entre piratas, ingleses e, no subtexto mais interessante do filme, os espanhóis. Há um ou duas set-pieces bem encenadas, mas nada de extremamente memorável. Gore Verbinsky não é um realizador de encher o olho, mas sabe que a loucura é matriz principal desta saga. Rob Marshall traz diversão, mas sem açúcar; e se bem que Jack Sparrow é demasiado doce para sofrer de dieta, o resto do filme acaba por se arrastar um pouco mais do que devia, entre a diversão ocasional.
"Real steel" é um daqueles filmes com coração onde parece picuinhas falar mal. Mas eu não sou propriamente conhecido pelas minhas boas maneiras. No entanto, há que ser honesto: Hugh Jackman é um actor que merece tudo o que de bom lhe acontece, pois é um duro carismático, que equilibra bem o sentimentalismo e a agressividade da rudeza australiana que lhe encaminhou o papel de Wolverine. Tendo o desafio de interpretar um homem que ignorou, até ao início do filme, o seu filho (e se vê obrigado a ter de passar com ele um Verão no meio dos robôs pugilistas que compõem a sua profissão), ele cativa e atrai o espectador, ajudado pelo ar reguila de Dakota Goyo, que interpreta o petiz. Evagenline Lilly aparece, e só se pode aplaudir isso. No entanto, a partir do primeiro quarto, o filme imita (para não dizer "rouba) a intriga de "Rocky". Não é homenagem, é roubo. Ponto por ponto: a história de um robô que todos julgam ultrapassado e volta para desafiar o campeão do mundo não surpreende e só ressoa pelos dois actores em questão Há bons efeitos especiais, mas de resto, dispensa-se.
"Die hard 4" devia ser pior do que é; mas entretém e é divertido dentro da sua irrealidade (Mclane contra um helicóptero; Mclane contra um avião a jacto; Mclane passa um dias com um nerd e não lhe dá três galhetas). Numa intriga que o coloca contra piratas informáticos que se aliam a atletas de parkour, Bruce Willis passeia um ar enfadado, mas sem comprometer. Mantém-se a tradição de haver vilões fracos quando não se entrega o papel a britânicos )Timothy Olyphant é bom actor, mas consegue ser das piores coisas do filme) e Len Wiseman, não sendo John McTiernan (não há, actualmente, mitos bons realizadores de acção com menos de 60 anos. Porquê? Não sei mesmo, mas parece estranho, não é?) carrega as coisas em modo cruzeiro, sem dar tempo para pensar nos imensos buracos narrativos e em toda a estranheza de vermos um "Die Hard" que tem muito pouco de hard e onde a acção e linguagem acabam por ser bastantes soft em aparato.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Rapidinho: "Apocalypto"
Sou daqueles mete nojo que chega, com confiança, a uma discussão acerca do filme "Braveheart" e diz que o achou mediano. Bem sei que é pecado. Aparentemente, a obra épica de Mel Gibson é vista por quase todas como um filme imaculado, inspirador, que conta uma história que urge ser espalhada. Não partilho nada dessa opinião: Gibson é um bom realizador de grandes cenas, trepidantes, que prendem à cadeira. Adora uma boa história de vingança e sangue e exprime-o no ecrã com grande vontade e competência; no entanto, não tem grande capacidade de conduzir uma intriga emocional, e estampa-se quando tenta defender factos históricos inventados. Exagera a mão em cenas que, embora na altura nos pareçam transcendentes, são apenas cheesy. O referido filme sofre bastante disto quando sai das batalhas e entra na história entre William Wallace e a rainha de Inglaterra; e para além disso, o final é... bem, dependendo das pessoas a quem perguntarem, transcendente ou lamechas.
Já "The passion of the Christ" é um filme mais interessante. Polémico pela sua dose de gore (e esse é um dos seus grandes defeito) é, no entanto, uma obra bem mais pujante e bem conseguida. Gibson tem um objectivo, e é inegável que mesmo discordando, percebemo-lo: Jesus Cristo é alguém que devemos admirar, pois era nobre e sofreu agruras por nós. Olhem bem o que lhe fizemos e como ele enfrenta isso com sacrifício e compostura. É o filho de Deus, e no entanto, na sua relação com Maria, mostra-se um mortal, humano, com os nossos sentimentos. O filme, embora mais extenso do que devia, é realizado com um sentido estético que estranha ver em Gibson (excelente, a fotografia de Caleb Deschanel), mas cumpre o seu propósito, e mistura um tom rude de filme histórico e uma transcendência de mensagem religiosa que harmonizam estranhamente bem.
Não estranha, então, que "Apocalypto", o último (até ver) filme de Gibson seja de facto excelente. O motivo é a mistura das duas coisas em que Mel Gibson já mostrou ser, de facto, muito bom: uma intriga de vingança, envolvendo um homem que se ultrapassa pela sua família, e cenas de boa acção e pancada, com um realismo ao nível gráfico que arrepia ocasionalmente. O filme conta a história de Jaguar Paw, um índio maia cuja tribo é devastada e capturada por outra bem maior e supostamente mais civilizada. O objectivo é levar os sobreviventes para servirem de sacrifícios humanos na grande cidade. Jaguar Paw tenta desesperadamente fugir dos seus captores e voltar para a sua família. Tudo podia ser dado de forma simplista e directa, mas Gibson serve-se desta história para transmitir duas ou três coisas sobre os males da civilização e corrupção do Homem que envergonham muito bom documentarista e cineasta panfletário. O contraste entre a vida em tribo, em comunhão com a Natureza e num espírito de comunidade, com o degredo da grande cidade, espelhada nos actos bárbaros de uma civilização tecnologicamente avançada não é difícil de constatar. Gibson tem até o cuidado de não fazer disto um cântico inocente e ingénuo como outros cineastas superiores (como Malick) o fazem. Há sujidade e dureza no modo de vida simples de quem vive na selva; mas o encanto, espírito comunal e entretenimentos simples estão lá e seduzem em comparação com o que encontramos na cidade maia: superficialidade um desprezo geral pela vida animal e humana, manipulações políticas, a perda de qualquer tipo de valor. Tudo isto falado em Maia e sem grandes discursos.
Aliás, "Apocalypto" prova que Mel Gibson é um cineasta de imagética e muito pouco de palavras. Uma sequência em que descobrimos através de frescos murais aquilo que desconhecemos no futuro da cena é um portento de simplicidade e poupança narrativa. As sequências de acção não servem só para causar tensão, mas acima de tudo para estabelecer personagens e suas relações. Tecnicamente, o filme é excelente e embora em partes a história se disperse demais para o destino da família de Jaguar Paw, isso não atrapalha o ritmo do filme, pois este acelera sempre que volta ao seu personagem principal, com desafios e obstáculos ainda mais difíceis do que o anterior, aumentando o sentido épico e fazendo crescer a mística do nosso herói. O tom inicial do filme, no entanto, é o de aproximar estes Maias cuja existência está afastada da nossa 500 anos da normalidade, contando um quotidiano que pouco difere do nosso, com relações de amizade e camaradagem, piadas de "gajos", partidas e relações familiares/emocionais onde nos podemos rever. Num ou noutro ponto, Gibson força uma piada de estereótipo que irrita, mas no geral, é louvável a tentativa que faz de aproximar noções de vida tão diferentes e forçar-nos a ver que, no fundo, somos todos humanos. Para alguém que é visto de momento como um xenófobo, é estranho, até, e deixa-nos a pensar sobre a maneira como Mel Gibson, a pessoa, é distorcida pelo circo mediático que o rodeia. Este filme tem tudo o que Mel Gibson adora: sangue, execuções, violência bem gráfica, e tudo isto banhado pela luz de tochas.
O filme tem alguns defeitos, ainda assim: a banda sonora é banal, e se bem que o ritmo do filme seja trepidante, há poucos clichés de filme de acção que Mel Gibson não atinja. Um particularmente infame é a maneira quase sobre-humana como Jaguar Paw ultrapassa os seus ferimentos como se não existissem, exibindo uma pujança física impossível. A certa altura, o exagero é tal que uma mulher grávida luta contra um macaco usando uma estalactite. Felizmente, a história tem comida mental suficiente para que estes sejam pormenores que não estragam a experiência. No final do filme, a mensagem de fuga da civilização é reforçada com a chegada da mudança ao continente americano. Jaguar Paw vira costas à mudança e retrocede para o interior da selva com a família. Ele sabe que o apetite voraz do Homem é o seu derradeiro inimigo e a causa da sua queda. Sabiamente, escolhe retroceder e viver com aquilo que o satisfaz e lhe traga felicidade. É, numa última instância, um pouco infantil, mas uma lição importante para o mundo de hoje. Afinal, uma grande civilização só se consegue destruir a partir do interior.
sábado, 17 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Crónicas americanas
O declínio de Oliver Stone é um dos grandes mistérios do século XXI cinematográfico. Não é o objectivo deste artigo tentar explicar as razões desse fenómeno, mas seria omisso se ignorasse esta evidência, tão mais evidente pelo percurso formidável que o realizador traçou desde meados da década de 80 até ao final dos dez últimos anos do século XX. Embora tenha começado a carreira como argumentista (ganhando um Oscar por "Midnight Express" e arrepiado sensibilidades com a verdadeira ópera de serrabulho barroca que é "Scarface"), Oliver Stone adquiriu fama de imbatível com três clássicos feitos praticamente de rajada: "Plattoon", "Born in the 4th of July" e "Wall Street". Os dois primeiros, que começam e seguem a sua trilogia do Vietname (completada, em 1993, por "Heaven and Earth") remetem para a experiência mais marcante da vida de Oliver Stone, o artista: o período em que combate no Sudeste Asiático.
"Platoon" bebe directamente nessa vivência. O personagem de Charlie Sheen emula, por admissão do realizador, o próprio Stone, e no meio do caos da guerra, "Platoon" é no seu centro uma batalha moral, onde a humanidade e a bestialidade que se debatem dentro de cada soldado são representadas, respectivamente, pelos sargentos Elias e Barnes. "Platton" é reconhecido por captar a vertigem da guerra, mas é interessante como se centra não tanto na tensão, mas mais na desorientação e de como as regras da moral, no conflito, são viradas ao contrário. "Born in the 4th of July" continua este abandono das regras, no caso as da decência. O relato de Ron Kovic, um paraplégico que caminha do patriotismo convicto para o patriotismo enraivecido, zangado por ter sido abandonado e usado pelo país em nome do qual lutou no Vietname, é apenas a continuação lógica das próprias reflexões de Stone sobre o conflito, não deixando que a América esquecesse uma ferida que estaria aberta enquanto não a quisessem fechar convenientemente. "Wall street" é uma variação deste tema, de uma América que se ataca a si mesma, e aos próprios cidadãos. Através da figura de Gordon Gekko, um amoral e no entanto moralista profeta do capitalismo, convencido de que esta ideologia é a panaceia geral do mundo, o cataclismo financeiro que nos adoece hoje é entrevisto de forma quase sobrenatural. Oliver Stone é o cronista, por excelência, da moderna história americana, e do espírito nacional dos EUA. Um patriota inquisitivo, como o próprio se gosta de intitular.
Há, no entanto, outras três títulos maiores no colossal período da sua carreira (entre 1986 e 1995) onde fez um punhado de obras-primas que passam ao lado dos três clássicos acima referidos.Duas excepções surgem: "The doors" é um biopic razoável com uma excelente interpretação lá dentro; e "Natural born killers" é uma obra bruta, experimental e desafiante do ponto de vista das ideias, mas com uma desorientação visual nada comum no realizador, e que acaba por afectar um produto final com tanta coisa boa (os actores deste filme, usando o over-acting como instrumento natural e óbvio, são uma coisinha tão boa que vale a pena, apesar de tudo). Tudo o resto é maravilha; e com naturalidade sobressaem três obras que espelham não só o clássico traço de denúncia presente no cinema de Oliver Stone, como também um avassalador poder técnico para condensar informação que reduziria muitos argumentistas a destroços criativos.
"Salvador", de 1986, esteve durante muito tempo no armazém de um estúdio, mas com o sucesso de "Platoon", a sua estreia tornou-se lógica; e é um excelente filme, acompanhando o trajecto de dois homens, um jornalista e um seu amigo, no conturbado ano de 1980, em El Salvador. Num país dominado por uma ditadura militar protegida pelos EUA, e à beira de uma guerra civil graças à acção de guerrilhas esquerdistas, é uma denúnica exposé através do olhar do jornalista, Richard Boyle, que procura no meio do conflito uma história para vender, e acaba por atravessar a linha que o separa da ditadura e dos revolucionários com um equilibrismo perigoso, pronto a cair. James Woods é intenso como Boyle, mas fica na memória um fotógrafo de guerra interpretado por John Savage, cuja vida e os conflitos bélicos se misturam. Um verdadeiro drogado, mais viciado no pó dos campos de batalha do que noutros mais característicos da América Latina. Embora desenvolva também uma história mais pessoal de Boyle, que inclui uma mulher por quem se apaixona e o seu filho, o ponto central no filme é a denúncia das atrocidades, a exposição do lado secreto da política externa norte-americana e uma certa ideia ingénua dos salvadorenhos, e por arrasto todos os povos a viver as dores de parto do pós-colonialismo, como tendo uma vida perfeita se ao menos não houvesse ingerências.
"Nixon", realizado 11 anos depois, continua essa reflexão sobre a alma política norte-americana, não só na sua relação com o mundo, mas acima de tudo na relação que mantém com ela mesmo, e com a memória e esperanças dos norte-americanos. Tenta ser, ao mesmo tempo, uma biografia ponderada e equilibrada (em certos pontos, talvez demasiado) de Richard Nixon, umas das mais vilanizadas, e controversas figuras da histórias dos EUA. Um homem cujo ódio por si mesmo conseguia ser maior do que aqueles que os outros lhe tinham. Anthony Hopkins é portentoso ao subverter todas as expectativas de imitação que existem nos biopics: apesar de não se parecer fisicamente com Nixon, ele é-o, soa a ele, desempenha-o e mergulha-nos na complexidade que só os grandes vilões possuem. O facto de a figura do presidente ser, em simultâneo, uma das mais bem sucedidas na sua política e uma das mais desgraçadas no seu legado confunde-o com a própria América, o país onde o desequilíbrio entre a sua promessa fundacional e a sua existência prática serão das mais assimétricas no planeta. O filme não funciona totalmente como o esperado (conhecendo a tendência de Stone para perseguir teorias da conspiração e a história escondida da América, fica-se com a sensação de que se passou ao lado de uma enorme oportunidade de festa, mesmo que Watergate, a Baía dos Porcos, oligarcas texanos e o assassinato de Kennedy sejam mencionados ao longo do filme), mas Stone está mais à procura de Shakespeare do que de si mesmo; e isso acaba por dar os seus frutos. Ond "JFK", por exemplo, será um filme para chocar e enraivecer, "Nixon" é mais fascinante e uma obra que pretende ser lida de diversas maneiras, nas leituras várias que faz da História.
No entanto, na minha opinião, nenhum filme de Stone mostra o seu poder quanto "JFK", uma obra prodigiosa em todos os aspectos possíveis. A começar pela subversão. Uma regra não escrita do guionismo diz-nos que um bom filme deve ter 90% de acção e 10% de exposição. "JFK" não só subverte esta regra, como é bem sucedido gloriosamente, ainda por cima como thriller. Não escondo que é dos meus filmes preferidos, e considero-o, tecnicamente, o filme mais perfeito que já vi, mesmo sendo de 1991: usa mais de vinte tipos de filmes diferentes, 15 câmaras a filmar diferentes velocidades, e consegue enfiar várias vezes o Rossio na rua da Betesga, ao sobrepor 3 espaços temporais numa mesma cena. Usando a subjectividade do nosso pensamento, com o cruzamento de imagens de eventos referidos em diálogos no exacto momento que são trazidos à acção, aumenta o impacto imagético, e sobre põe palavra, imagem, som e, o que é raro, memória de uma forma única. Assisto a "JFK" duas vezes por ano, no mínimo, e nunca deixo de me surpreender com cada pormenor que descubro e com a imponência de uma obra de três horas e meia, em que passadas duas estamos no início de um julgamento e mesmo assim, o espectador não se cansa e quer mais. E as interpretações,mesmo que fugazes, todas perfeitas? A banda sonora de John Williams, uma das suas mais subvalorizadas? O crescendo de gritos em Dealey Plaza, que culmina num coro que clama pela alma perdida dos EUA? Um parágrafo não chega para pôr em palavras o puro poderio brutal de JFK, e a ausência de palavras obriga a que as imagens falem por si.
Não sei o que se passou com Oliver Stone desde o seu último verdadeiro grande filme, "Nixon". "Any given sunday" tem momentos de grande impacto, daqueles que se esperam do que foi, numa certa altura, um dos mais fascinantes cineastas norte-americanos. Continuou a experimentar géneros, a cumprir projectos longamente acalentados e a ceder ocasionalmente a oportunidades fáceis de ganhar dinheiro, permitindo a a estúdios explorar os seus sucessos e a sua própria fama de provocador político. No entanto, embora adormecido, não creio que Stone esteja morto artisticamente. A estreia, na próxima semana, de uma série documental que produz e realiza, "The untold story of the United States of America" pode ser a prova disso. Este é, afinal, o mais romântico cronista político dos Estados Unidos da América. truculento, polemista e gritando contra o seu próprio país as vezes suficientes para nos provar que o ama verdadeiramente.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















.jpg)






















