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terça-feira, 29 de maio de 2012

"There will be blood"



Paul Thomas Anderson, desde que surgiu, tem sido apontado como o herdeiro de uma série de grandes realizadores, desde Scorsese a Robert Altman. Se isto, por um lado, atesta o seu enorme talento como cineasta, por outro reduz o valor da sua originalidade, e coloca-lhe um peso acrescido de ter de manter a comparação. Nas críticas que leio a "There will be blood", Anderson volta a ser comparado a outro grande realizador da História do cinema, John Ford, e aí eu pensei: o que faz este homem para que seja equiparado a 3 artistas tão diferentes no seu estilo e nas suas temáticas? Está claro que isso é a prova definitiva da polivalência de Anderson como homem do cinema. "Boogie nights", "Magnolia" e "Punch-drunk love" têm como única ligação concreta passarem-se em S. Fernando Valley, a zona da cidade de Los Angeles onde normalmente se desenrolam os seus filmes.



"There will be blood" pode até passar-se em S. Fernando Valley, mas uns 100 anos antes de todos os filmes de Anderson terem lugar. Estamos na California de 1892 e acompanhamos um prospector chamado Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em plena actividade de exploração. Os primeiros 20 minutos são absolutamente mudos e de uma economia de caracterização de personagem absolutamente notável: quando Plainview cai num poço de extracção, parte uma perna e encontra um pedaço de prata. Julgamos que a sua maior pressa é ir ao médico. Claro que sim, mas só depois de se arrastar até à cidade mais próxima e se dirgir ao Gabinete de Prospecção para registar a sua descoberta.
Plainview é um maníaco do sucesso e da riqueza; é profundamente obcecado com os seus objectivos; e não parece haver grande espaço para sentimentos no seu interior. Está lançado o mote para um longo de estudo de personagem que dura duas horas e meia. Seguimos a carreira de Daniel e do filho adoptado H.W, que seguem comprando terras onde se situam lençóis de petróleo, por toda a Califórnia. É nesse percurso que encontram aquele que é o outro grande personagem da história, Eli Sunday, auto-imposto pastor evangélico, que funda um pequeno culto numa aldeia onde se encontra um largo lençol de petróleo que Plainview quer explorar. O confronto entre estes dois personagens é o que faz avançar a segunda metade do filme e coloca, simbolicamente, duas forças em confronto: o capitalismo, representado pela sede de riqueza de Plainview, e a religião, simbolizada por Eli Sunday. No entanto, ambos são colocadas desvirtuadas: Plainview vai a extremos na sua ânsia, seja a extorquir aldeões das suas terras, seja pelo seu desprezo pelos outros apenas por serem os outros, onde chega a dizer que a razão pela qual quer se rico é para nunca mais ter de falar com ninguém. De facto, este é um homem cujos únicos lampejos de humanidade são vistos através da sua relação com o filho, mas isto apenas ao início. À medida que o filme se desenrola, sentimos que perdemos Plainview por completo, para um buraco mais escuro que o petróleo que procura.



Eli é a religião manipulativa, um falso profeta com manias de grandeza, mas que se auto-ilude. Usa as pessoas para conseguir ser alguém na vida e vê em Daniel uma fonte de dinhieor que poderá elevar a sua Igreja da pequenez de um lugar perdido no meio do deserto. O confonto de vontades entre estes dois homens, na luta pela influência nas pessoas de Little Boston e posterior uso mútuo daquilo que ambos têm de melhor, ressoa obviamente dois dos grandes pilares do espírito americano, o direito de cada um a enriquecer e de acreditar no que seja, até a maior aldrabice. Anderson consegue, assim, um raro exemplar de épico intimista, grande nas ideias e temas, pintado a pinceladas largas, mas nunca se afastando do seu centro de gravidade, que é Daniel Plainview.
Falar do trabalho de Day-Lewis neste filme é uma imensa redundância. Vão ler aqui o que já leram noutros lados: o homem é o maior, ponto final. Trabalha muito pouco, mas quando aparece, pega em personagens que nunca ninguém se lembrou de criar, transfigura-se e dá performances tão boas que nos fazem querer levantar a meio e bater palmas pelo que estamos a ver. Paul Dano é que merece palavras elogiosas e tem recebido poucas, pois é difícil desviar a atenção do Day-Lewis show. Dano consegue ser carismático como pastor e patético como personagem, um paradoxo que nunca deixa de ser credível. Para além disso, nunca perde o pé quando tem de se confrontar com "the man" himself. No entanto, a interpretação de Lewis quase faz esquecer aquilo que torna este filme verdadeiramente poderoso: Paul Thomas Anderson. Naquele que é o seu melhor filme (e com a carreira deste homem, é muito dizer isto), Anderson, que é habitualmente palavroso e utiliza uma fartura de gimmicks visuais, consegue ser seco, profundamente visual, de uma economia de planos absolutamente impresssionante. Vê-lo utilizar apenas um plano para uma cena quando realizadores de menos categoria utilizariam 5 ou 6 deixa um cinéfilo abismado. Este filme prova, a quem tinha ignorado "Magnolia" e o muito subestimado "Punch-drunk love" que Anderson está a caminho de se tornar num dos grandes da história do cinema recente. Só alguém de categoria terminaria um largo épico numa cena que desenrola entre dois personagens numa sala, com quase um quarto de hora de diálogo. A sério.



Eis um filme que, pelo menos assim a frio, não é um dos melhores filmes da História do Cinema. Para lá caminhará. Não pertenço à categoria de fãs hiperbólicos de Anderson. Mas "There will be blood" é desde já uma das grandes obras cinematográficas do século XXI, sem dúvida, um filme com uma pulsão barrativa fora do comum e um daqueles personagens fascinantes capazes de criar culto no Youtube e de permanecer connosco muito depois de o filme terminar. E sim, também vocês vão sair da sala com vontade de gritar "I drink your milkshake! I drink it up!!!".

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Children of men"




"Children of men" é uma distopia cujo maior trunfo é a proximidade com o mundo em que vivemos, e, portanto, a probabilidade palpável da sua ameaça. Para além de ter servido de pretexto para o uso da expressão críptica atrás escrita, é também um brutal filmaço.

Conta a história de um mundo em 2027, onde a pessoa mais jovem do planeta, com 18 anos, morreu esfaqueada à porta de um bar. Este é um tempo em que a infertilidade feminina chega aos 100% e onde, portanto, não há esperança nem sequer no som de uma criança a brincar. Theo Farron (Clive Owen), personagem principal, é um desiludido funcionário público, a quem a ex-mulher, Julianne (Julianne Moore) pede que escolte uma jovem negra até à costa. A missão reveste-se de especial risco, visto que a jovem é imigrante e a Inglaterra de 2027 proíbe a entrada de estrangeiros; quando os encontra, envia-os para campos de detenção, onde são processados e devolvidos aos países de origem. Entenda-se por campos de detenção uma região inteira no sul do país, que toma os contornos de cidade controlada pela polícia e onde a constante anarquia reina entre os refugiados que aí são colocados. Para mais, Theo descobre o porquê de esta jovem ser importante: ela é sinal de esperança...



Alfonso Cuáron adopta a estratégia de realizar o filme de câmara ao ombro, a pedir meças ao estilo habitual de Paul Greengrass, onde a imagem anda à solta e planos sequência feitos a pé são regra geral. A estratégia funciona em pleno, pois adapta-se ao futuro caótico onde se vive, sujo, desiludido consigo mesmo e onde nada, mas mesmo nada parece correr bem. É um futuro tão negro que o simples chorar de uma criança é o que basta para que a esperança surja luminosa, mesmo que seja na proporção de um pirilampo fechado num poço escuro de 12 metros de profundidade. "Children of men" tem excelentes ideias, que precisavam provavelmente de um argumento melhor organizado: toda a história soa a périplo moralista. No entanto, a potente realização de Alfonso Cuáron consegue articular um todo coerente e dá-nos algumas das sequências mais memoráveis do cinema recente, como sejam um ataque a um carro onde a câmara não sai uma única vez do seu interior, e um plano-sequência de Theo e de Kee, a jovem que este protege, num campo de detenção, onde chovem bombas, balas e ódio por todos os lados. Clive Owen, o anti-herói do filme, está excepecional, com um desdém que acaba por nunca ser desprezo, carregando até uma certa nobreza no seu ar meditabundo. Ele acaba por ser, talvez, o mostruário do poder e uma criança como sinal de mudança: um homem que vê a sua fé no mundo perdida com a morte do filho e que acaba por ganhar, com outro que não o é, uma razão, não para sorrir, mas para ao menos lutar. De qualquer forma, o tom do filme é desesperante e a morte está sempre presente. Faz-noz pensar se daqui a 20 anos o desvario não seja este. Uma obra de visão obrigatóri para quem gosta de filmes que façam pensar a sério sobre este mundo em que vivemos actualmente.

domingo, 20 de maio de 2012

"Kick ass"




"Kick-ass" é um filme em cuja palavra "demência" pode ser usada para explicar basicamente o que nos inspira, enquanto o vemos. Porquê? Poderão ler em várias críticas coisas que envolvem palavras como "meta-diegética" e "desconstrução". São giras, mas claramente uma tentativa de intelectualizar o prazer culpado de se gostar de um blockbuster. A BD de Mark Millar e John Romita na qual o filme é baseado presta-se a essa análise. Mas quem é honesto, admite que o filme é demente, porque tem uma miúda de onze anos a matar mauzões como se não houvesse amanhã.
Mas lá chegaremos. O filme conta em traços gerais a ideia parva de um adolescente nerd  em  transformar-se um super-herói. Para ele, basta vontade e um fato parolo enviado pelo correio. Claro que o primeiro pensamento é "Oh não, mais um daqueles filmes em que não damos nada pelo herói e afinal, ele sempre teve os poderes dentro dele", mas o filme rapidamente afasta essa ideia e enquanto se entretém a satirizar os fenómenos de popularidade internética, mostra-nos que o adolescente, Dave Liszewski, é mesmo tótó. É quando os verdadeiros heróis do filme surgem que a coisa passa do mundo adolescente para o dos super-heróis a sério. Big Dady e Hit-girl, um pequeno prodígio da matança que com a sua katana dupla entra realmente a matar no filme, têm, ao contrário de Kick-ass, capadidades para deter criminosos. Mas também muito pouca sanidade. Rapidamente os três entram em rota de colisão com o mafioso da cidade, Frank d'Amico, e também o seu filho, Chris.
A mensagem do filme é simples: "Sem grande poder, vem uma grande responsabilidade", um riff aos filmes do Homem-Aranha. Matthew Vaughn, o realizador, é um cruzamento bizarro entre o John Woo de Hong-Kong e um Michael Bay com juízo: aproveitando habilmente um orçamento relativamente magro, ele transforma "Kick-ass" num pequeno concentrado de loucura visual e de história, com Nicolas Cage a imitar o Batman de Adam West. Hit-girl (Chloe Grace-Moetz a ser uma revelação), a miúda acima referida, mata gente, diz palavrões à bruta e aceita a destruição como brincadeira. No entanto, nunca nos esquecemos de que ela é realmente uma miúda, como se fosse a filha perdia da noiva de "Kill Bill" e a Mathilda de "Léon". Isto pode abespinhar moralistas e gente que considera que sempre que se mostra uma arma num filme, as pessoas correm a matar alguém, mas é no fundo um espelho da nossa própria identidade fílmica, de aceitar a violência nos filmes como algo de normal e natural. Nesse sentido, o filme é mais paródia ao cinema violento do que ao cinema de super-heróis. Mas consegue ser bem sucedido em ambos os esforços. Louva-se também o retrato mais ou menos natural do que é a vida de um nerd numa escola, sem exageros. Há apenas uma sub-intriga envolvendo homossexualidade que achei meio cliché... Mas que ainda assim, tem a sua piada.
É um filme que se recomenda a quem gosta de entretenimento delirante e não tem uma sensibilidade particular a um ou outro tabu. Ah, e que não acha o conteúdo do seguinte vídeo particularmente ofensivo.




domingo, 29 de abril de 2012

"The avengers"



"The avengers"
Realizador: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Tom Hiddleston, Samuel L Jackson, Scarlett Johansson, Jeremy Renner

Haverá filmes melhores este ano, e até filmes que renderão mais dinheiro... Duvido é que apareça um tão carregado de hype e expectativas como este. Afinal, estamos a falar da reunião do quarteto de personagens principais dos franchises que a Marvel Studios tem construído nos últimos quatro anos (para quem vive numa gruta na Serra d'Aire e Candeeiros: Iron Man, Hulk, Captain America e Thor), a quem se juntam outros quantos, mais ou menos importantes, como Hawkeye, Nick Fury e Black Widow. Tudo para combater um deus asgardiano com os seus amigos aliens. Pode não parecer, mas a probabilidade de uma empreitada destas soçobrar com o seu próprio peso é incrível. Para se ter uma ideia, a DC andou anos a tentar fazer o mesmo, com a Justice League, e nunca conseguiu arrancar o projecto. Quando Kevin Feige, geek mor da Marvel, decidiu arriscar lançando o projecto "The avengers", deve-lhe ter passado pela cabeça todo o tipo de desgraças; e no entanto, desde "Iron Man", em 2008, que vem construindo este evento, com capítulos para cada um dos referidos heróis principais, com maior ou menor sucesso financeiro e artístico.



Feige podia também ter enveredado pelo caminho fácil. Centrando o filme no Homem de Ferro, o personagem com mais sucesso daqueles que fizeram a transição para o cinema, aplicava-lhe o título "Iron man... and friends (e mais alguns cromos de quem nunca ninguém ouviu falar)", e o negócio estava feito. Teve, no entanto, paciência, planeamento e acima de tudo visão para perceber que este filme não funcionaria se não conseguisse que o protagonismo fosse dividido por todos; e para isso acontecer, a empatia do público pelos personagens devia ser uniforme.

Muitos boas notícias: o filme consegue isto, e mais: é uma das coisas mais divertidas em que vi num cinema. Há um sentimento de diversão infinita palpável, mesmo que a história seja um pretexto (invasão alienígena à terra, um grupo de super-heróis deve reunir-se, sucedem-se acção e pancada). Mas ao contrário de muitos outros filmes em tempos recentes que julgam que a pirotecnia é o segredo para ganhar o público, "The avengers" segue o caminho que Eurípides, Sófocles e Aristófanes começaram há uns anos, no intuito de conquistar a atenção de uma plateia de milhares: centra-se em personagens. Não cometo a heresia de atiçar certas franjas, comparando a intriga do filme às complexas ligações dramáticas de tragédias gregas; mas há em "The avengers" um intuito bem definido de criar uma ligação directa e imediata entre quem vê e quem se está a ver. Antes de tudo o mais, estão Tony Stark, Steve Rogers, Thor e Bruce Banner. Apenas depois vêm os seus alter-egos heróicos; e no final disto tudo, o regabofe de efeitos especiais e piruetas. Aliás, é por isso que o regabofe resulta. Não estamos a ver sombras, mas sim gente com quem nos importamos. O porquê de a maior parte dos blockbusters modernos esquecerem isto ultrapassa-me. Embora a história trave de vez em quando, os seus plots e até clichés são tratados com classe e estilo.



"The avengers" é, antes de tudo o mais, a melhor BD cinematográfica até agora feita. Tudo porque o filme replica exactamente o que faz dos comics e seus personagens a base de uma mitologia moderna comparável aos panteões divinos antigos (o que aqui é mais propositado, visto que alguns dos personagens são deuses).  São personagens acima do humano, mas reconhecidamente humanas; nalguns casos, deuses, noutros homens que se fizeram deuses. Colocando a análise mais folclórica de lado, existem as piadinhas, provocações e falas típicas da BD, juntamente com os heróis em conflito físico e aqueles desejos geeks que são satisfeitos (Hulk vs Thor! Capitão América vs Iron Man!). Joss Whedon é o homem que se deu a esta empreitada, e é mais geek que muitos, e percebe por isso a geekness inerente. Dificilmente se teria entregue a realização a alguém mais capacitado. Whedon construiu a sua carreira na televisão, escrevendo e lidando com elencos alargados e tornado-se conhecido por um particular talento a lidar com palavras em diálogos que têm tanto de pop culture como de jogo labiríntico. É uma delícia ver um actor como Robert Downey Jr. a lidar com o que Whedon escreve, e verificar como o estilo do argumentista empurra o filme e facilita a interacção entre personagens. Em alturas, julguei estar a ver pranchas de BD a mover-se perante os meus olhos, tal a colagem de estilo. Seja a equilibrar personagens, a dar-nos falas profundamente divertidas ou a criar um espectáculo visual de destruição que se desenrola a grande velocidade, mas sem nunca perder a noção de espaço ou dos próprios dramas, por muito leves que sejam, dos heróis, Whedon constrói aqui um blockbuster extremamente sólido. Pouca gente no showbizz norte-americano merece mais uma consagração geral do que Whedon, cujo talento permaneceu durante muito tempo admirado por uma franja específica.



Whedon nunca ignora que há um universo maior, e que os personagens em que pega já se estabeleceram em aventuras inidividuais: Steve Rogers, o Capitão América, continuou um herói em conflito consigo mesmo, depois de adormecer em 1945 e acordar 60 anos mais tarde num mundo que não é o seu; Thor, mais ponderado e, vá lá, Real, é quem tem motivações pessoais, pois é Loki, o seu irmão, quem ameaça o planeta com os seus planos. Mesmo mais maduro, Thor continua com um ar gingão e arruaceiro, típico de quem gosta de lutas; Tony Stark, o Homem de Ferro, amadureceu pouco e continua com a arrogância e anti-socialidade que aprendemos a gostar, mas que não funciona nada bem em grupo; Bruce Banner, o Hulk, é a incógnita, pois a aparente falta de controlo que tem sobre o seu outro eu é uma bomba relógio à espera de explodir na sua cara, e de quem lhe aparecer pela frente. E ainda temos o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra, assassinos mercenários com contas a ajustar com o passado. No meio dos actores que desempenham estes arcos, e mesmo que ninguém esteja realmente mal, há destaques. Downey Jr. é ele mesmo, e consegue resultar tanto nos starkianismos a que nos acostumámos, como naqueles momentos onde é pedido ao personagem que mergulhe nalgum drama; Tom Hiddleston, como Loki, é maldosamente brilhante, como vilão, como manipulador e também como um homem que se sentre traído e enganado no seu destino; Mark Ruffalo é a revelação do filme, entregando finalmente a Hulk um Bruce Banner complexo e decente na sua repressão do "outro", como lhe chama. Aliás, alguns dos momentos mais cool e divertidos do filme são protagonizados pelo gigante verde. Nota-se que há uma camaradagem e química muito boas entre todos os actores. Todos combinam e acima de tudo, percebem o que têm de fazer e em que filme estão. Há um gozo óbvio quando desempenham os seus papéis, e esse prazer chega-nos como espectadores e faz-nos sentir bem. Como eu disse, "The avengers" é das coisas mais divertidas que vi no cinema; e quando os participantes são os primeiros a mostrá-lo, é um excelente sinal.

Há defeitos: a banda sonora de Alan Silvestri, por muito que me custe, é serviçal e difcilmente recordamos um tema que tenhamos ouvido. Há buracos no argumento que provavelmente ficaram na sala de montagem e aparecerão no DVD, sendo que um deles envolve Hulk e me arreliou um pouco depois de sair do cinema. A transição do segundo para o terceiro acto talvez seja demasiado rápida, mesmo que o acontecimento que a marca (que não revelarei) tente justificar a vertigem do que se segue, mesmo quando há obstáculos criados anteriormente que não se podem ultrapassar com um estalar de dedos.



Ainda assim, são pormenores. Na categoria de cinema de super-heróis, "The dark knight" e "Batman returns" continuam a ser filmes superiores, e a bitola pela qual todos os outros exemplares do género têm de confrontar. Mas talvez não por acaso, são duas obras que se afastam bastante das suas origens. "The avengers" será, sem medo, a melhor adaptação de BD que chegou ao cinema. É gloriosamente feira popular, sem nunca nos atraiçoar os neurónios. Consegue equilibrar tudo aquilo que é bom nos comics e no cinema, num filme heterogéneo e de grande público que só engrandece a chancela "blockbuster". Lerão muitas críticas negativas de escribas portugueses, talvez estranhando que por nenhuma vez haja monólogos interiores ou desconstruções sancionadas por Foucault. O meu conselho é ignorarem e descobrirem que o cinema é arte, mas continua a ser diversão, escapismo e duas horas e tal bem passadas numa experiência comum, perante um ecrã. Ainda que a catarse seja através de violência; mas como diz o Whedon, "The avengers" é acima de tudo a história de uma família disfuncional que resolve os seus problemas através da maneira mais americana de todas: pancadaria. Nada que o trio de trágicos gregos acima mencionados tivesse desdenhado nas suas obras.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

"La casa muda"





"La casa muda"
Realizador: Gustavo Hernandez,
Elenco: Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso

O cinema latino-americano tem assumido, nos últimos anos, grande protagonismo entre os cinéfilos. Se há dez anos se pedisse a alguém o nome de um realizador do Cone Sul, saíria Walter Salles, e a custo. Hoje, qualquer pessoa razoavelmente bem informada sabe quem são Fernando Meirelles, Guillermo del Toro, Alejandro González Iñarritu e Alfonso Cuaron; e o mundo em geral descobriu que Tropa de Elite não é uma divisão especcial dos GOE. Há dois anos, inclusivamente, um filme argentino ganhou o corespondente Óscar para obras estrangeiras.



Não estranha por isso que este "La casa muda" tenha atraído o festival de Sundance a projectá-lo. É um projecto uruguaio, uma cinematografia que desconheço, que vem com um daqueles gimmicks destinados a aparecem em qualquer pedaço de marketing: o filme foi rodado num só take.
O género de terror, a que pertence "La casa muda", habituou-nos a produtos desde género, emulações da realidade documental com sustos e saltos, de que a saga "Paranormal activity" é o exemplo mais conhecido. É de louvar, no entanto, o realizador por escolher um formato onde vários artistas mais consagrados se enfiaram, apenas para verem gorados os seus intentos de fazer obras de relevo. Hitchcock, por exemplo, tentou e "The rope" é mais recordado com um objecto de curiosidade do que propriamente pela sua densidade; Nikita Mikhalkov expetimentou-o em "The russian ark", e bastante bem sucedido. pode-se argumentar, no entanto, que a sua experiência funciona melhor como instalação de arte (e uma muito boa) do que como filme. O take único é utilizado esporadicamente em filmes, mas apenas em cenas especificas. Aplicá-lo a um filme inteiro, e de terror, exige um requintado par de tomates, ou então uma sede insaciável de hype.



Ora, "La casa muda" não é um filme extraordinário, mas não é também uma experiência completamente falhada. A história gira em torno de um casal de pai e filha que são contratados para restaurar uma casa, por um amigo do pai. Ao adormecerem de noite nessa casa, barulhos começam-se a ouvir, e antes que possamos dizer "ruído = a salto na cadeira", já a situação escala para algo mais perturbador. Contar mais é estragar a história do filme. Nota-se, a léguas, que o orçamento envolvido nesta fita dava para construir o capacete de um "Iron Man": os recursos são baixos (utilizam-se apenas duas fontes de luz, há quatro actores e basicamente quatro paredes de cenário) e a história é curta e simples. Não é isto que mancha o filme, porém. Há uma falta de ritmo em momentos, que arrasta a acção. Nota-se que o take único rege algumas das decisões de realização para pior. Mesmo com 75 minutos, um tempo curto para uma longa-metragem, a história estica em certos momentos até ao ponto onde podemos ver através dela, e encontrarmos nada. Não ajuda que a actriz principal, não tendo uma falta de talento grave, repita constantemente os seus tiques de susto, fazendo um espectador menos paciente suspirar com aquele soluço repetido à trigésima vez da mesma maneira.

Mas o que "La casa muda" tem de bom, por estranho que pareça, é o rumo que toma o último acto. Depois de arrastar os pés em busca daquele susto no espectador (e há uns muito bem montados, admita-se: digamos que nunca mais olharei para uma máquina Polaroid com os mesmos olhos), o filme acerta com um twist que não só vira a história toda ao contrário, como o faz elevar-se para uma simples máquina de terror. Há, ali, uma história suja e complexa que nunca esperaria dar-se, e embora me faça questionar algumas consistências na narrativa anterior, dá um tal sentido à história que prescindo dessa mesquinhice. O filme respira de outra maneira, e a meu ver, com um terror muito mais eficaz e próprio, da única maldade que pode assustar mais do que a paranormal. A utilização da câmara é, felizmente, mais ágil do que seria previsível, dando algum dinamismo a um filme onde, como referi, a história se arrasta por vezes lentamente.



Não é que a técnica usada no filme seja essencial para o sucesso do mesmo. Este argumento podia ter sido filmado à maneira clássica e teria o mesmo efeito e, talvez, um poder maior. Mas o realizador experimentou algo de novo, e não fracassa. A obra é interessante, pelo menos, e como primeiro filme, não envergonha nadinha. Ainda há cinema de terror com alguma qualidade, hoje em dia. É preciso saber procurar, e depois desta experiência, estou muito curioso para descobrir o que existe para os lados de Montevideu.